Destes Tempos | Galeria Ybakatu

2022 | Galeria Ybakatu, Curitiba.

Entre nós

Lígia Borba vincula sua produção recente trazida para esta exposição, as séries Objetos oceânicosTecidos sem tearTrançados egípcios e Intrusões, à sua produção anterior, igualmente variada e reunida sob o título Objetos topológicos. Todas compostas por peças de cerâmica – como na vasta maioria de suas produções, a argila é aqui a matéria eleita pela artista –, e derivadas de suas especulações formais sobre a Fita, ou Faixa, de Möbius. A diversidade de resultados atesta a diferenciada capacidade da artista de trabalhar com profundidade a argila, mais a água e o fogo, é claro – lembremos que estamos falando de uma ceramista, que explora a argila numa mesma família formal.

Tecnicamente falando, a Fita de Möbius é um espaço ou superfície topológica que se obtém pela emenda das extremidades de uma fita após tê-la feito dar uma meia volta em torno de seu eixo. Caso se queira riscá-la longitudinalmente com um lápis, o risco ora ficará do lado de fora, ora passará para o lado de dentro, o que serve para derrubar a velha antinomia entre dentro e fora. Como explica Ton Marar em seu Topologia geométrica para inquietos, esse vasto e intrincado território do conhecimento ao qual pertence a Fita serve, dentre outras inadvertidas possibilidades, para que possamos deduzir o formato do universo. “Seria nosso Universo infinito? Se for finito não deve ter borda, senão o que estaria para além da borda? Não há a menor chance de sairmos deste Universo para apreciar o seu formato […] Temos de deduzir este formato”. Indagações como esta, além da beleza intrigante da Fita e da infinidade de “nós” a ela correlatos – sim, os nós, esses produtos triviais da inteligência dos dedos, do mais simples à mais complexa amarração que é um nó de marinheiro –, fez com que ela, Fita, caísse nas graças dos artistas plásticos, dentre eles Escher, o gravador holandês, artífice de grandes paradoxos visuais, corresponsável por sua popularização.

Fita de Möbius causou impacto no meio artístico brasileiro, a começar pela escultura em metal Unidade tripartida, do suíço Max Bill, que levou o grande prêmio da 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. À Unidade tripartida se juntaria, 12 anos depois, Caminhando, obra prima de Lygia Clark, responsável pelo deslocamento do espectador da obra de arte de sua habitual passividade física – só da passividade física, pois a atividade mental, quando estimulada por qualquer boa obra de arte, pode por si só atingir as raias do frenético –, colocando em suas mãos uma tesoura e uma fita de Möbius feita de papel, e convidando-o a cortá-la longitudinalmente, conduzindo-o a uma espécie de caminhada.

É provável que Lígia Borba tenha chegado à Fita de Möbius pela via descrita, mas a artista explica que sua visão sobre o tema renovou-se com as leituras de textos de Jacques Lacan acerca de nós, como o Seminário Topologia e Tempo, de 1978-1979. Por si só, essa referência demonstra o espraiamento desse campo do saber que é a Topologia, ramo da matemática, em outras disciplinas. Por quê? Porque, assim como na Fita, certas situações não nos permitem distinguir entre dentro e fora, sonho e realidade, observador e observado etc.

Esta introdução, que já vai consumindo metade do espaço reservado a este texto, não elude o efeito causado pelas obras dessa exposição, sua qualidade material, o processo envolvido, dentre outros aspectos. Fosse assim, as obras de arte se resolveriam em teorias, o que não é o caso. Uma coisa é o conteúdo da obra, sua carga metafórica, o dado simbólico, outra coisa é a resolução formal desse conteúdo. Quem já leu sobre a tumultuada vida de Alberto Giacometti sabe de seu desespero na confecção de retratos, na dificuldade de realizar um nariz a contento. “Impossível”, dizia ele.

Olhar com atenção as obras que Lígia nos apresenta implica reconhecer o processo envolvido na sua produção. Matéria e técnica, como matéria e forma, são termos indissociáveis, e a eles junta-se, nesse caso, aquela que promove as ações transformadoras: a artista.

Lígia Borba – Objetos oceânicos, 2021
Cerâmica 1230°
Dimensões variáveis

Olhar para os cachos de elos que perfazem o corpo dos Objetos oceânicos, afora a proposição de que tudo está articulado entre si, num emaranhado que vai se esparramando sem fronteiras, remete à raiz do processo de confecção: tomar a argila, matéria tornada mole e suscetível enquanto umedecida, reduzi-la a porções posteriormente espichadas em linhas grossas e compridas, cortá-las em roletes curtos e soldar suas extremidades. Esse procedimento repetido obsessivamente, ampliado com o engate de um elo no outro, culmina na proliferação que dá à peça uma aparência orgânica. Esse encaminhamento, por sua vez, decorre da organicidade da relação estabelecida entre a artista e a matéria, o enamoramento, a pulsão erótica que nasce da experiência da argila pelas mãos, sopesando-a, percebendo sua densidade, peso, maleabilidade, cheiro, cor e luminosidade. Assim como a Fita de Möbius, a linhagem de artistas à qual Lígia Borba pertence não se constitui antes desse embate, sob a forma abstrata de um projeto, ao contrário, é indissociável da matéria, acontece junto com ela; a artista fabrica o destino da matéria ao mesmo tempo em que fabrica seu próprio destino, encontra-lhe a vocação formal ao mesmo tempo em que essa vocação nasce-lhe dentro, processo que também envolve os instrumentos utilizados e que finda no avizinhamento do fogo que, junto com a água e a terra, compõem o terceiro elemento do processo.

Lígia Borba – Intrusão 1, 2, 3, 4, 5 e 6, 2021-2022
Ceramica/raku

Seguindo essa linha de raciocínio, as peças pertencentes à série Intrusões são até mais explícitas. A topografia movimentada de suas concavidades, corpos ocos em cujas fronteiras irrompem múltiplas aberturas alveolares, enseja a passagem da luz e do ar, permitindo que o olhar a atravesse; a lisura de seus corpos, convidando à carícia – tudo isso dispõe sobre a intensidade do contato que as gerou.

As peças reunidas sob os títulos Tecidos sem tear e Trançados egípcios aprofundam-se no tema formal dos nós. As linhas grossas de argila perfazem tramas de desenhos variados, cuja lógica construtiva muitas vezes se demora a perceber. Recortados, depositados em caixas fechadas com vidro, têm um quê de achados arqueológicos, da memória da descoberta e desenvolvimento da arte de tecer, da produção de tecidos para as roupas, tapetes, enfim, da infinidade de objetos decorrentes dessa invenção. O protagonismo do barro remete ainda às casas primitivas, aquelas que precederam a invenção do tijolo, que nasceram de paredes confeccionadas pelo trançamento de fibras vegetais cintando uma área de modo a definir uma zona interior, cujo acesso se dava por uma entrada, um umbral, uma porta que abria indistintamente tanto para o íntimo como para o mundo.

Agnaldo Farias

Lígia Borba – Trama de elos, 2021
Cerâmica 1230°
49 x 24 cm

Lígia Borba – Tecido sem tear 1, 2, 3, 4, 5 e 6, 2021
Cerâmica 1230°
57,5 x 41 cm (cada)

Lígia Borba – Intrusão 1, 2021-2022
Cerâmica/raku
40 x 24 x 23 cm

Lígia Borba – Intrusão 2, 2021-2022
Ceramica/raku
26 x 18 x 24 cm

Lígia Borba – Intrusão 3, 2021-2022
Ceramica/raku
33 x 26 x 23 cm

Lígia Borba – Intrusão 4, 2021-2022
Cerâmica/raku
47 x 22 x 13 cm

Lígia Borba – Intrusão 5, 2021-2022
Cerâmica 1230°
40 x 16 x 35 cm

Lígia Borba – Intrusão 6, 2021-2022
Cerâmica 1230°
40 x 12 x 32 cm


Conversa com Lígia Borba e a psicanalista Gleuza Salomon, 26/4/2022

Tecitura do Real

Nada mais difícil de imaginar que o real! Esta foi a exclamação de Jacques Lacan enquanto manipulava os objetos topológicos que havia extraído do campo da matemática, e dos quais passou a valer-se para uma nova formalização da psicanálise, chegando a nomear como tórica a estrutura do ser falante. O corpo é tórico.

A passagem do ensino de Lacan para o campo da topologia ocorreu por um confronto com o impossível, com a impossibilidade de imaginar o real. E foi a partir deste impossível que Lacan percebeu que o que escapa à imaginação é o próprio real. A partir deste processo, Lacan passou a fazer a geometria do tecido, do fio, da malha, e considerou que é arte a tecitura da hiância que há entre o imaginário e o real. Conclui que como a arte é também metáfora, é a arte que permite tecer o real que escapa e, é deste modo que o real lacaniano virá a se transmutar em tecido.

E é deste campo do imaginário que se materializa pelo tecer disso que escapa, deste real que se diz, que se faz, então, lacaniano, que a escultora Lígia Borba se valerá, a meu ver, como suporte para enfrentar um real distinto, o real da pandemia que assolou milhões de pessoas. A pandemia submeteu a todos em geral, e a cada um especificamente, mas levando a todos, de forma homogênea, ao sentimento de escravatura, de servitude a um real sem lei, que tem a propriedade de ser, sendo sem sentido e mudo.

Falando sempre por minha perspectiva, advinda da vivência que mantenho com o mundo psicanalítico via Lacan, entendo que Lígia Borba usa sua potente imaginação e realiza um furo na Garrafa de Klein, é a escultora em ato que fez um furo, rompeu a superfície dos falsos furos, do mutismo perplexo ante à endemia, e o fez ao modo de uma irrupção de um corpo que emitiu um grito, um grito que antecedeu o furo, o ato inventivo da artista a leva a esculpir o grito que cria o furo, o que conduz a imaginar que ao realizar este furo, abriu uma via para estes mesmos objetos topológicos que são alicerce para a psicanálise de Jacques Lacan, com o intuito de metaforizar o finito dos objetos que se deformam, mas cuja invariante é ter um furo.

Isto que advém de Lacan, da sua geometria do tecido, da trama e da malha, é o próprio tecido do inconsciente que Lígia dá a ver materialmente com os pedaços de argila, de rochas decompostas e moídas, minério, óxidos metálicos, moldados e queimados. Estes objetos cerâmicos se traduzem em pedaços de tecidos insurgentes do fato de terem um corpo tórico. Como também nos múltiplos objetos tecidos com várias tramas, que flutuam como pedaços soltos, figurando pedaços (sempre eles) do real, insólitos em sua mostração.

Outra série escultórica da artista são as múltiplas correntes que concretamente trazem a amarração e o peso do isolamento pela pandemia, como de um novo elemento até então insabido que é da possível eminência da finitude da própria espécie humana. Esculpindo em barro o eterno feminino no logifiar Destes Tempos, tal qual o oleiro que com o pote constrói o vazio, Lígia Borba como escultora apreende a ex-sistência pela via do real e a consistência pela via do imaginário, que o corpo tem de ser um pote.

Nas peças escultóricas tituladas Intrusões, a artista fura desta vez o bloco de argila, retirando de dentro para fora a argila, faz múltiplos furos, esculpindo ao avesso do fazer escultórico anterior. Tais furos corporificam intrusões de afetos que antes furaram o corpo. Introduz as cores nas entranhas destes objetos deformados de sua geometria clássica.

A arte do vazio, estremece, esperneia, sacode o more (modo, costume) geométrico (geometricus), não mais o infinito da forma, mas a deformação necessariamente temporal, algo que faz furos, como o que se esfolia (exfolie) – desfolha, solta as cascas ou fólios da face de algo.

Gleuza Salomon

Fotos: Gilson Camargo
Link para imagens produzidas no atelier e residência da artista durante o ano de 2021

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